Os 150 mil euros que não são "desperdício", mas investimento
A Tauromaquia não é apenas um espectáculo ou uma expressão cultural portuguesa. É o coração económico de muitas terras portuguesas. Em torno da Festa vive um tecido de pessoas, empresas e territórios que, sem ela, perderiam uma parte decisiva do seu sustento e da sua identidade. Perante a crítica de um partido político de Santarém aos 150 mil euros atribuídos a actividades taurinas, importa esclarecer dois pontos essenciais: este valor não é despesa – é investimento – e, no caso concreto, nem sequer se destina exclusivamente à Tauromaquia, mas sim a um conjunto alargado de eventos integrados nas Festas de São José.
Com efeito, como demonstra o próprio cartaz oficial, estamos perante uma programação diversificada que inclui actividades equestres, encontros de escolas, iniciativas culturais, momentos institucionais, música e animação popular, para além dos eventos taurinos. Reduzir este apoio público a uma alegada "subvenção à Tauromaquia" não só é factualmente incorrecto como revela uma leitura enviesada da realidade, eventualmente propositada.
Economia da Festa: números, pessoas e territórios
Quando uma cidade como Santarém organiza as suas festas – à semelhança de tantas outras vilas, lugares e lugarejos portugueses –, não está a programar "só" eventos isolados; está a pôr em marcha uma cadeia económica complexa. Dias antes, os cafés reforçam stocks, os restaurantes ajustam equipas, o alojamento local enche, as bombas de gasolina registam incrementos, os talhos e mercearias aumentam encomendas. Para muitos pequenos negócios, estes dias representam a diferença entre um ano razoável e um ano mau.
Nas ganadarias trabalha-se todo o ano para aquilo que o público vê em poucas horas: tratadores, vaqueiros, motoristas, ferrageiros, veterinários, fornecedores de rações e de serviços. Depois, há o universo das empresas e profissionais ligados directamente à Tauromaquia – muitas delas associadas da Associação Nacional de Toureiros – que dão emprego a famílias inteiras. Mas há também todos os outros sectores mobilizados por um programa festivo desta dimensão, muito para além da arena.
Em dezenas de concelhos, as temporadas e os festejos populares são o pico anual da actividade económica. Quando o calendário encurta, não é só uma agenda cultural que emagrece: são as contas das famílias que ficam em risco. Discutir apoios municipais sem contextualizar este efeito multiplicador não é sério.
Tauromaquia e turismo: produto âncora num programa mais amplo
No turismo, a Tauromaquia é um trunfo relevante, mas raramente surge isolada: integra-se numa experiência mais vasta. Quem visita Santarém nestes dias não vem apenas por uma corrida; vem pela Festa no seu todo: pelas actividades equestres, pelo ambiente, pela gastronomia, pela convivência.
Santarém tem sabido atrair grandes figuras do toureio, garantindo visibilidade e impacto económico. Mas esse impacto não se esgota na praça: espalha-se pela cidade inteira e por todos os sectores envolvidos nas Festas de São José. É o conjunto que cria valor, não uma parte isolada.
Comércio e cadeia de valor: muito para além da arena
Cada evento integrado na programação festiva activa uma vasta cadeia de valor. Desde os criadores de gado bravo até aos artesãos, passando por empresas de som, luz, montagem, restauração, comércio e serviços, tudo beneficia do aumento de actividade gerado por estes dias.
Importa sublinhar que esse dinamismo não resulta apenas das corridas, mas de toda a programação.
As actividades equestres, os encontros culturais, os momentos institucionais e o entretenimento popular contribuem igualmente para atrair público e gerar consumo.
Serviços e profissões únicas
Por trás de uma festa desta dimensão está um mundo de serviços especializados. Alguns ligados à Tauromaquia, outros à organização de eventos, à cultura, ao turismo e à animação. São empregos directos e indirectos que exigem competência e experiência.
Desaparecendo a Festa, não desaparece só um espectáculo; perdem-se oportunidades económicas, empregos e competências, mas sobretudo perde-se cultura portuguesa, identidade nacional e valores insubstituíveis. É por isso que devemos falar de investimento e não de despesa.
Resposta ao PS de Santarém: rigor e verdade
A crítica aos 150 mil euros parte de um pressuposto errado: o de que se trata de um apoio exclusivo à Tauromaquia. Não é. Trata-se de um investimento num programa vasto, plural e estruturante para a cidade, onde a Tauromaquia é apenas uma das componentes – relevante, sim, mas integrada num todo muito mais abrangente.
Além disso, mesmo isolando a componente taurina, o retorno económico gerado por eventos com elevada capacidade de atracção supera largamente o montante do apoio público. Quando uma praça enche, não está apenas a vender bilhetes; está a dinamizar hotéis, restaurantes, comércio e serviços.
Santarém, capital do Ribatejo e referência maior da Festa em Portugal, não pode ignorar aquilo que a sustenta. Discutir estes apoios com base em simplificações ou deturpações não contribui para um debate sério. Não se pede a ninguém que goste da Tauromaquia. Pede-se apenas rigor, honestidade intelectual e respeito por uma realidade económica e social que vai muito além de preconceitos ou leituras ideológicas.
Cláudio Miguel
Vice-presidente da PróToiro
Presidente da Associação Nacional de Toureiros