forcados portugueses-las ventas
Fevereiro. 04. 2026 Fevereiro. 04
A Diplomacia Tauromáquica

A Diplomacia Tauromáquica

A tauromaquia portuguesa consolidou-se ao longo dos séculos como uma das mais antigas ferramentas de soft power e de diplomacia cultural do País. Através da lide a pé, do cavalo e da valentia do forcado, Portugal estabeleceu pontes com geografias distantes, criando um verdadeiro capital de ligação cultural, capaz de unir comunidades desde a África Lusófona à Ásia e às Américas. Essa força de ligação assenta na profunda singularidade da cultura portuguesa – uma tradição equestre e campestre que moldou a portugalidade, combinando coragem, arte e respeito pelo animal e pela terra, valores que integram de forma indelével a nossa identidade.

Uma tradição de inclusão e pioneirismo

A vocação agregadora e transcontinental da tauromaquia portuguesa manifestou-se de forma pioneira no plano social, racial e de género, muito antes de tais debates se tornarem centrais no discurso cultural contemporâneo, mesmo num meio tradicionalmente conservador. Um exemplo revelador é o de Fernanda do Valle (1859–1927), pseudónimo literário da caboverdiana Andresa do Nascimento, mulher negra e figura destacada da Lisboa finissecular. Escritora, cronista e presença activa nos círculos culturais da capital, destacou-se pela sua ligação à tauromaquia enquanto toureira, numa época em que a arena era quase exclusivamente masculina. A sua participação pública e social na vida taurina lisboeta simboliza uma tauromaquia aberta, integradora e urbana, capaz de acolher mulheres e figuras oriundas do espaço atlântico africano no coração da cultura portuguesa. A sua trajectória antecipa, de forma notável, a dimensão diplomática informal da festa brava como espaço de circulação de pessoas, ideias e identidades – uma linguagem cultural de inclusão e modernidade no contexto do império e da lusofonia.

A África Lusófona e os herdeiros da bravura

No continente africano, a tauromaquia não foi apenas um espectáculo importado, mas uma tradição que ganhou raízes locais e produziu figuras de proeminência internacional. No toureio a pé, os nomes de Tony da Silva e Ricardo Chibanga permanecem como os mais emblemáticos de Angola e Moçambique. Formado em Espanha, Tony da Silva actuou como matador de toiros nas praças históricas de Moçâmedes (actual Namibe) e de Sá da Bandeira (actual Lubango) durante as décadas de 1950 e 1960, simbolizando uma fusão singular entre a técnica europeia e a vivência africana. Já Ricardo Chibanga afirmou-se como uma figura absolutamente singular na história da tauromaquia mundial. Nascido em Lourenço Marques (actual Maputo) e iniciando-se como forcado do Grupo de Moçambique, alcançou notoriedade internacional ao tornar-se, no início da década de 1970, o primeiro matador de toiros negro a confirmar alternativa em Madrid, na Praça de Las Ventas. A sua carreira, desenvolvida nas principais praças de Espanha, França, Portugal e América Latina, rompeu barreiras raciais e culturais num meio tradicionalmente conservador. Chibanga personificou uma tauromaquia de afirmação universal, onde arte e valor se impuseram aos preconceitos, projectando Moçambique e África no coração da história do toureio a pé. A infraestrutura tauromáquica na África Lusófona foi robusta, com praças emblemáticas e activas, além das referidas de Moçâmedes e Sá da Bandeira, como Luanda, Lourenço Marques e Beira. Nesses territórios, o papel dos forcados foi essencial para a integração social, à semelhança das actividades desportivas e agremiações culturais de hoje. Os Grupos de Forcados de Angola e de Moçambique, activos até meados da década de 1970, reuniam elementos de Portugal e naturais das terras, promovendo um convívio interétnico em torno da coragem e da entrega coletiva, valores fundadores da experiência portuguesa no mundo. Essa memória sobrevive na diáspora, com descendentes desses forcados integrando hoje grupos em Portugal e mantendo vivos nas arenas lusas apelidos e uma linhagem de bravura de origem africana.

A dimensão asiática e o símbolo de Macau

A capacidade de expansão da cultura tauromáquica portuguesa atingiu novos marcos no Oriente. Em Macau, a presença da lide portuguesa serviu historicamente como ponto de contacto cultural e político de alto nível, reforçando a identidade lusófona num território de charneira civilizacional. Essa importância simbólica foi realçada na década de 1990, quando as últimas corridas de toiros realizadas em 1997 e 1999, antes da transferência de administração, adquiriram significado histórico profundo. Mais do que simples espectáculos, foram autênticos actos cerimoniais de despedida e de afirmação de uma herança cultural de quase cinco séculos. Funcionaram como rituais de transição, celebrando a identidade portuguesa num momento crítico de mudança geopolítica e demonstrando o valor diplomático da tradição em contextos de transformação. Recentemente, este intercâmbio foi revitalizado pela Escola de Toureio José Falcão, de Vila Franca de Xira, que participou na Bienal Internacional de Arte de Macau de 2025, a convite do Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong. Esta presença levou a tradição e a técnica do toureio além-fronteiras, revelando a tauromaquia como forma de arte plástica e performativa de elevado rigor. A representação taurina lusa esteve a cargo do Maestro Victor Mendes, acompanhado pelos novilheiros Vicente Sánchez e João Fernandes, ambos posteriormente distinguidos na Gala da Tauromaquia de Lisboa, demonstrando a vitalidade e continuidade desta arte ao serviço da diplomacia portuguesa.

A projecção taurina no Sudeste Asiático

A universalidade do ritual tauromáquico português foi comprovada por actuações históricas na Indonésia, Macau e outros territórios do Sudeste Asiático na década de 1960, em demonstrações culturais e equestres. Esses eventos, organizados com as autoridades locais e acolhidos com curiosidade estética e emotiva, mostraram como a coragem dos toureiros e forcados, a bravura dos toiros e a destreza equestre são linguagens universais, gerando emoção e respeito para além das barreiras linguísticas e religiosas. Em Agosto de 1966, Macau recebeu uma série de nove corridas consecutivas que esgotaram as lotações; o público asiático reagiu com entusiasmo, especialmente às faenas de Ricardo Chibanga. Já em Jacarta, abril de 1969 marcou o maior espectáculo tauromáquico do mundo: mais de cem mil pessoas encheram um estádio para assistir a uma corrida à portuguesa. Organizadas por Alfredo Ovelha e Manuel dos Santos, essas corridas transcenderam o plano cultural, funcionando como instrumento de aproximação diplomática entre Portugal e a Indonésia.

Expansão global e influências culturais

A vitalidade desta cultura mede-se também pela sua capacidade de atrair e integrar o outro. A criação de grupos de forcados no México e nos Estados Unidos, a realização de corridas no Canadá e a presença de cavaleiros e forcados estrangeiros em arenas portuguesas mostram que a tauromaquia lusa é um modelo exportável e inspirador. Esse poder de atracção foi imortalizado por figuras universais como Ernest Hemingway, cujo fascínio pela ética e tragédia da festa ajudou o mundo anglo-saxónico a compreender sua dimensão simbólica, elevando-a a património de interesse humano universal. Em solo americano, os portugueses implantaram corridas de toiros no Brasil, que mantiveram forte dinamismo até ao final do século XIX. Ainda hoje persistem rituais populares e simbologias taurinas levadas por comunidades emigrantes, sobretudo no Brasil e na Califórnia.

Tauromaquia, ecologia e identidade nacional

Para além da sua dimensão cultural e diplomática, a tauromaquia assume papel essencial na preservação do património ecológico português. A criação do toiro bravo sustenta o montado e a dehesa, ecossistemas únicos protegidos pela Directiva Habitats da União Europeia. Sem a rentabilidade proporcionada pela festa brava, estes territórios de alta biodiversidade – onde habitam o lince-ibérico e a águia-imperial – estariam em risco de desertificação ou substituição por monoculturas intensivas. A tauromaquia é, assim, guardiã de uma paisagem que moldou a alma portuguesa: escola de coragem e de respeito pela terra e pelos animais, expressão da bravura dos matadores e da solidariedade dos grupos de forcados. É um factor de orgulho nacional e um sinal vivo de diversidade cultural e abertura ao mundo.

O cavalo lusitano e a diplomacia da arte equestre

A tauromaquia portuguesa encontra o seu expoente no cavalo lusitano, raça nacional cuja história se confunde com a própria fundação de Portugal. Criado na Coudelaria Real de Alter, este cavalo tornou-se instrumento indispensável para a arte do toureio equestre e símbolo vivo da soberania nacional. O reconhecimento da Escola Portuguesa de Arte Equestre como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 2025, constituiu um ato diplomático de enorme significado e repercussão internacional. Este estatuto consagra inseparavelmente o cavalo de linhagem Alter Real, sem o qual esta arte clássica não existiria. O mundo reconhece assim o Lusitano como criação genial da cultura portuguesa: nascido para a guerra, aperfeiçoado para a arte da lide e preservado como património universal das gerações futuras.

Embaixadores e figuras do soft power português

A internacionalização da marca Portugal através da tauromaquia deve-se também a personalidades que se tornaram verdadeiros embaixadores culturais. Manuel dos Santos destacou-se como matador de toiros a pé, contrariando a tradição equestre dominante, e alcançou nas décadas de 1950 e 1960 um estatuto de estrela internacional nas praças de Espanha, França e América Latina. A sua técnica refinada e a ligação emocional que estabelecia com o público demonstraram que a arte taurina portuguesa podia brilhar com luz própria no exigente universo do toureio a pé, erguendo-se como um pilar do soft power nacional. No mesmo campo, sobressai a figura do Maestro Victor Mendes, actual Diretor Técnico da Escola José Falcão. A sua dedicação à formação de novas gerações de toureiros e ao intercâmbio artístico – incluindo a participação na Bienal de Macau – faz dele um diplomata silencioso da cultura portuguesa, garantindo a transmissão de uma linhagem artística de valor inestimável. No toureio a cavalo, nomes como João Moura, João Branco Núncio, David Ribeiro Telles, Fernando Salgueiro, Pedro Louceiro e Samuel Lupi cimentaram o prestígio internacional da escola portuguesa. Também os grupos de forcados, presença constante em arenas de todo o mundo, exportam uma imagem de coragem, solidariedade e abnegação, conquistando o público pela singularidade da sua arte. No toureio a pé, matadores como José Júlio, José Falcão, Rui Bento Vasques e, mais recentemente, Pedrito de Portugal, elevaram o nome do País nas principais praças de Espanha, França e América Latina. Juntos, formam uma autêntica embaixada de prestígio que afirmou Portugal como potência taurina vibrante e moderna no cenário mundial.

Conclusão: a tauromaquia como activo diplomático Profundamente enraizada nos costumes populares e nos vínculos históricos transcontinentais, a tauromaquia portuguesa contribui para a conservação da natureza e para a formação da identidade nacional. Por isso, recomenda-se que o Estado Português e as suas instâncias diplomáticas valorizem este património como recurso estratégico de diplomacia cultural. Promover intercâmbios entre escolas de toureio, apoiar digressões internacionais de grupos de forcados, integrar a temática taurina em certames artísticos e destacar o seu papel ecológico em fóruns ambientais são formas eficazes de fortalecer a influência portuguesa no mundo. A tauromaquia não é apenas herança do passado: é um cartão de visita cultural, uma ponte para a amizade entre povos e uma chave essencial para o prestígio internacional de Portugal.